BISA - 90 ANOS DE MEMÓRIA, 90 ANOS DE HISTÓRIAS
-Testemunha viva de mais de 90 anos de história contada por Eudóxia Navarro Guerreiro-
Meu nome completo é Eudóxia Navarro Guerreiro.
Nasci em 17 de abril de 1909. Em Ipauçú.
É uma cidade por aí, não sei, não é muito longe. Nunca fui lá. Engraçado, quando eu viajava com meu marido, uma vez nós passamos e tinha uma plaquinha que dizia Ipauçú. E eu falei: vamos entrar pra eu ver onde eu nasci? Meu marido não quis entrar e eu não conheci. Eu nasci numa fazenda dos Cunha Bueno.
Eu nasci na fazenda, porque meus pais vieram da Espanha e foram direto pra fazenda.
Meu pai foi Francisco Navarro Sanches e minha mãe Beatriz Perez Lopez.
Vieram imigrantes. Naquele tempo, conforme chegavam, cada um tinha um fazendeiro que pegavam eles pra trabalhar. Foram bem recebidos e não tratados assim como imigrantes. Minha mãe era muito caprichosa, então a mulher do Cunha Bueno chamava ela pra ir na casa, pra ela costurar e tudo. Tanto que ele foi meu padrinho. O Cunha Bueno, o velho - naquele tempo ele já era velho... Tem os Cunha Bueno que acho são seus netos. Depois, de vez em quando vinha de Sorocaba e nós íamos visitar ele. Ele tinha casa aqui em São Paulo, mas depois eu perdi de vista. Parece que ele separou de minha madrinha. Nunca mais tive contato com ele.
Era fazenda de café. E uma fazenda boa. Chamava Fazenda Santa Eudóxia, e ele me pôs o nome porque era da mãe dele a fazenda.
Depois de mim minha mãe teve um menino. Depois não teve mais. Éramos seis irmãos. Os outros nasceram na Espanha. Eu e meu irmão nascemos aqui. O meu padrinho foi padrinho dele também. Ele se chamava Henrique da Cunha Bueno, então meu irmão chamava Henrique, o nome dele. Minha mãe colocou o nome dele no meu irmão.
Meus pais nunca aprenderam a falar bem o português. Falavam meio arrastado. Minha mãe falava melhor. Meu pai só falava espanhol. Ele não falava português.
Meus irmãos falavam melhor. Foram na escola. Tinha um irmão mais velho que gostava de música. Estudava clarineta e tocava clarineta numa banda que tinha lá na fábrica da Mooca. Todos nós falávamos em português em casa. O meu pai entendia o que a gente falava e a gente entendia ele.
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Pais de Eudóxia (Francisco e Beatriz),
irmãos (Rosa, Margarida, /Giné, Paco e Henrique)
INFÂNCIA
Mudamos da fazenda pra Sorocaba.
Mudamos porque meu pai não queria ver minhas irmãs e meus irmãos lá, trabalhando na terra, na fazenda. Então viemos pra Sorocaba. Lá, eles foram trabalhar na fábrica. Eu tinha dois irmãos - as duas primeiras eram mulheres. Então eles todos trabalhavam. Só eu que não trabalhava fora. Tinha uma irmã que tinha muito ciúmes de mim, que dizia que eu era a queridinha. Ela trabalhava na fábrica e eu não. Era boa e tudo, mas tinha essa inveja de mim. Tudo que minha mãe fazia para mim, ela dizia que eu era a queridinha de todos. Eu nunca trabalhei fora, na fábrica. Minhas irmãs trabalhavam, meus irmãos também. Um dos irmãos trabalhou desde pequeno. Depois viemos para São Paulo. Eles foram trabalhar também. Trabalhavam no Crespi, eram tecelões.
Sorocaba era uma cidadezinha boa, muito quente e lá eu aprendi a bordar. Moramos em diversas casas.
Uma casa que eu morei era numa travessa da rua da Penha. Era uma casa grande. Lá eu fiquei mocinha. Tinha minhas coleguinhas. Tinha uma praça que nos domingos se fazia o futim. Andava ali em volta da praçinha. Era esse o divertimento. Tinha também o cinema. Meus irmãos me levavam no cinema. E era assim a vidinha da gente.
O passeio era esse. Meu pai trabalhou em Votorantim que era uma cidadezinha pra lá de Sorocaba, tinha um trenzinho. A gente levava o almoço na estação. Minha mãe fazia a marmita. Todos de Sorocaba trabalhavam em Votorantim. Votorantim era pequena e não tinha muita gente. Então eram os trabalhadores de Sorocaba que iam. Eu ia na estação, eu ia levar a marmitinha. A gente punha num vagão e o trenzinho levava o almoço deles pra Votorantim. E meus irmãos trabalhavam em Sorocaba mesmo.
Nessa época eu devia ter... Devia ter 11 ou 12, por aí.
Meus pais eram bastante severos. Meu pai era bravo, só vendo, com meus irmãos. Em mim ele nunca bateu, mas pra meus irmãos ele castigava; qualquer coisa que eles faziam ele pegava a cinta, dava neles. Era muito severo. Minha mãe não era tanto, mas era severa também. Eu tive uma mocidade muito segura.
Eu não tive uma mocidade gostosa.
Minha mãe me dava tudo o que podia. Até fui bem tratada. Ela me enfeitava muito. Naquele tempo não se usava cabelo curto, era cabelo comprido. Ela me fazia papelote de noite. Quando nós morávamos nessa última casa em Sorocaba, numa travessa da Rua da Penha, no quarteirão na frente tinha o estádio de futebol. Todos os clubes vinham de fora e jogavam lá. Então, nos domingos tinha futebol e era aquela festa. Eu ia. Tanto que entendo de futebol porque desde mocinha vejo futebol. A gente ia. Ela me enfeitava muito, ela me fazia papelote no cabelo, me arrumava bem, era ela que costurava minha roupinha bem feitinha. Minha mãe não era caprichosa na casa, na limpeza nem nada, a casa era meio bagunçada. Era caprichosa com as coisas que ela fazia. Costurava, costurava muito bem.
Aí
viemos para São Paulo.
Resolveram vir pra São Paulo porque minha mãe achava que aqui
tinha mais campo para os meus irmãos trabalharem O intuito dela é
que eles ganhassem mais porque eram eles que sustentavam a casa. Meu pai já
estava de idade, não podia trabalhar muito. Não é que não
podia, é que não achava mesmo no que trabalhar. Mesmo assim ele
trabalhou em Votorantim. Meu pai trabalhou na fábrica em Votorantim bastante
tempo, e de servente de pedreiro também.
Era uma vidinha puxada viu.
Quando eu vim para São Paulo, minha mãe não me deixava sair. Eu não saia com coleguinha nenhuma. Só saia com minha mãe. No cinema, ia com ela, acompanhada. Não é que nem agora que as moças saem, são livres. Naquele tempo não era seguro. Depois, comecei a namorar. Tinha um monte de moços que gostavam de mim, não sei porque. Tinha um moço, um turquinho, que era louco por mim. Não cheguei a namorar com ele. Só tirei linha. Depois apareceu o meu marido. Aí começamos a namorar escondido. As famílias se conheceram, eram espanhóis também. Então se conheceram, a gente se visitava. Mas, ninguém sabia. Era só de olhar.
Eu vim pra São Paulo já era bem mocinha, já tinha... Eu tinha 14 anos.
Aprendi a costurar com minha mãe. Fazia camisas para meu marido.
Fui
morar no Brás.
O Brás era... - mais ou menos 1924. Tinha a rua Caetano Pinto. Aquilo
era uma coisa. Era um cortiço. Não era um cortiço eram
uns corredores. Cada corredor tinha uma porção de quartos. Eram
só quartos. Não tinha cozinha. Não tinha banheiro, não
tinha nada. Em cada porta tinha um fogareiro. Essas latas de querosene. Eles
arrumavam com tijolos dentro e fazia um fogareiro. Punham carvão e lá
cozinhavam. Era uma bagunça na rua. Nas calçadas punham coisas
para vender. Era essa a rua Caetano Pinto e a Carneiro Leão. A Carneiro
Leão era mais suavezinha. A Caetano Pinto era uma espanholada e uma italianada
que era uma coisa louca viu. A gente não gostava de passar perto. Passava
longe.
No Brás era tudo diferente. Tinha uma porteira que dividia. Diziam "as porteiras do Brás". Dividia a Rangel Pestana com a Celso Garcia. Essas porteiras fechavam, passava o trem, depois abria, a gente atravessava. Já era a rua Celso Garcia. Era muito comércio, muita coisa. Paschoal Bianco era uma casa de móveis muito grande. Era boa. O Brás era meio bagunçado.
Eudóxia com 14 anos
Me lembro da Revolução de 24.
Eu morava na rua Santa Rosa e o Palácio das Indústrias era pertinho. E a minha casa era um sobradinho de madeira. E eles lutavam, não sei, do Palácio das Indústrias pra não sei que lugar. A gente sentia as balas assobiarem por cima. Nós tínhamos que ficar de noite em baixo de uma escada porque em cima era perigoso. Assim mesmo, quando deixamos o Brás pra vir pra Lapa (nós fugimos) porque estavam caindo granadas no Brás.
Teve gente que saiu de casa pra ir num cinema que chamava Cinema Olímpia, e aquele dia caiu uma granada no Olímpia e matou um monte de gente. Gente que deixou as casas de medo e foi morrer lá.
A gente ficava na escada, de noite, naquele frio, sentada. Meus irmãos dormiam embaixo da cama. Assim mesmo saímos de casa e quando voltamos tinha uma bala em cima da cama deles. Foi triste aquela.
Nós estávamos trabalhando, eu trabalhava na 25 de março. Veio lá o gerente e falou: guardem as máquinas, guardem tudo e vão para casa que tem uma Revolução. Nas ruas eles abriam trincheiras (era tudo de paralelepípedo). Então eles levantavam os paralelepípedos e faziam trincheiras no meio da rua. Tinha gente que levava comida pra eles porque lá estavam os que fizeram a Revolução.
O Isidoro era o chefe da Revolução. Foi duro. Os soldados pegavam as mocinhas. Ih, minha mãe não deixava nem eu sair. Eu morava numa vila. Sair na porta foi ruim. Não tinha pão, não tinha nada.
Foi triste essa Revolução...
Lutavam na Mooca, jogavam as granadas, a gente ficava fora de dia. Se viam as granada passar assim. Parecia garrafa de cerveja. Assim grandes, assobiavam. Até que aquele dia caiu uma atrás de minha casa, fez um buraco enorme, matou uma moça que estava na janela e tudo. Quando foi no dia seguinte, começaram a cair no Palácio das Indústrias. Caiu uma e não explodiu. Caiu fora e não explodiu. Depois de muito tempo um dos moços de lá da vila desenterrou a granada e desarmou ela num tanque de água pra ver o que tinha dentro. Eram bolinhas de aço dentro da granada, por isso que quando explodia fazia um estrago danado. Aquela que caiu perto de casa matou uma moça, matou gente que ia passando na rua porque levantou os paralelepípedos e jogou pra todo lado. Fazia um estrago essas granadas.
Tinha a fábrica Crespi lá na Mooca. Depois da Revolução nós passamos por, não tinha um vidro, tudo arrebentado de tanta granada e bala que pegou na fábrica.
Foi triste aquela Revolução...
Tinham os revoltosos. Era o tempo do Getúlio, eu acho né. Eles perderam. Depois de muitos dias, não sei quantos dias durou. Eu sei que nós ficamos em casa, presos.
Foi triste aquela Revolução...
Nós fugimos. Meu pai queria que nós fôssemos e ele ficava. Minha me disse: ou vamos todos ou ficamos todos. Aí fomos todos, mas meu pai depois voltou pra casa.
Fomos para a Lapa. De lá do Brás, da rua Santa Rosa, fomos a pé, pegamos a Avenida São João. No caminho a gente via aqueles caminhões cheios de cadáveres, que eles carregavam. É que caiam granadas, matava gente pra xuxú. Eram caminhões de gente que nós víamos pelo caminho. E viemos até a Lapa.
Nesse tempo era eu, meu irmão menor e meu irmão mais velho. Dois irmãos. E viemos para a Lapa onde tinha um Grupo Escolar e ficamos lá todo mundo. Estava cheio de gente que fugia do Brás pra lá. Ficamos lá tudo dormindo no chão. Aí tinha o meu irmão mais novo que estava com febre, acho que de susto de tanta coisa né. Eles deram um colchãozinho pra ele, e então minha mãe pôs o colchãozinho atravessado e dormíamos todos. As pernas ficavam fora, mas o corpo ficava no colchãozinho. Já melhorou.
Deixamos tudo em casa. Fechamos a casa. Me lembro que minha mãe estava com um fogareiro fora, cozinhando feijão. Ficou lá o caldeirão e tudo. Fugimos. Todo mundo saiu porque estava caindo granadas lá pertinho. Caiu uma que não explodiu, mas nós vimos quando caiu. A outra fez aquele estrago. Então nós viemos e ficamos até acabar a Revolução. Nem sei quantos dias foi. Na minha idéia parece que foi 23 dias. Não tenho bem lembrança. Tinha um padre que era quem tomava conta. Ele saia e angariava mantimentos, trazia e cozinhava. Lá a gente ajudava: uma lavava louça, outra arrumava a mesa e tudo. E nós ficamos aí até terminar a Revolução.
Depois voltamos pra casa. Estava em ordem, do jeito que deixamos. Não tinha acontecido nada. Só essa bala em cima da cama. Nós estávamos dormindo e ouvimos um estrondo. E eu falei: que será que está acontecendo?
Os revoltosos estavam fugindo e explodiram uma ponte na Lapa. Explodiram que era pra ninguém passar e ir atrás deles. Daquele dia em diante acabou a Revolução. Nós voltamos e depois eu mudei de casa, fui morar na rua... uma travessa da rua Piratininga. Lá eu era solteira. Lá eu comecei a namorar meu marido.
Só fiz até o quarto ano primário.Quando eu saí da escola lá em Sorocaba, eu já não freqüentei mais. Fui aprender melhor a bordar, fui na Singer. Me dediquei a ser bordadeira mesmo. Trabalhei na rua 25 de Março.
Namoro
Logo que eu vim pra São conheci o João. Ele estava com um pouco
mais de 16 anos. Nos conhecemos e aí começamos a tirar linha,
que se dizia naquele tempo.
E começamos a namorar. E o namoro foi duro porque uma vez nós fomos numa festa e ele sentou perto de mim. Aí eles ficaram desconfiados que estava namorando com ele. Precisamos abrir o jogo. Ele precisou pedir pro meu pai pra namorar comigo, pra ir em casa. Noivei 3 anos, depois casei. Também ele não era rico, era pobre. Tivemos uma vida não muito larga. Trabalhava, aquele dinheirinho que trabalhava, dava pra gente tocar a vidinha da gente.
Um dia eu estava numa loja. Estava uma moça procurando emprego também, para costurar. Nós entramos nessa loja, nos deram emprego. Eu como bordadeira e ela como costureira. E nós fizemos amizade. Eu morava na rua Visconde de Parnaíba e ela morava mais ou menos perto. Então, nós íamos e vínhamos juntas, a pé, até a rua 25 de Março. A gente atravessava o parque, aquele Parque D. Pedro, atravessávamos tudo a pé. Porque não tinha condução. Tinha, mas só na rua do Gasômetro. Não era em todo lugar que tinha. Morei na Rua da Mooca. Lá tinha bonde. O bonde... quando eu trabalhava na cidade, tomava só de vez em quando. Não podia tomar bonde sempre porque não gastava muito. Eram 200 réis. Naquele tempo era réis: um conto de réis, um réis... No bonde se pagava 200 réis. O "cara dura" era um bondinho menor que ia junto com o bonde grande. Parava um tostão como se dizia naquele tempo.
Então, nós fizemos amizade e ela dizia: eu tenho um sobrinho, porque meu sobrinho... Me enchia com esse sobrinho. Porque meu sobrinho está estudando, ele vai se formar "Guarda Livros"... Me encheu tanto que um dia me levou na casa dele. Eles moravam na rua da Alfândega, e essa tia dele morava mais pra lá, no Brás. Me levou até lá e lá eu conheci ele. E ele se engraçou comigo e não me deixava sossegada. Namorei com ele. Depois minha mãe falava: "Você é tão nova e ele também, está estudando, vai atrapalhar o estudo dele. Porque vocês não acabam?" Minha mãe que instigou pra eu acabar o namoro. Aí eu dei o fora nele. Ele ficou desgostoso. Eu falei: "Vamos acabar. Você está estudando". Acabamos bem, assim, não houve nada. Ficamos quatro meses. Depois de quatro meses começamos a namorar outra vez. Ele ia me esperar lá na rua 25 de Março.
Nós tínhamos um sofá. O sofá tinha um braçinho né. Então minha mãe fazia eu sentar no sofá, tinha o braço, e ele na cadeira. Esse sofá separava nós dois. E ela ali na mesa, lendo ou fazendo crochê - ela gostava muito de fazer crochê. As vezes, meu pai também ficava lendo. Era assim. Nós não podíamos conversar. Então nós escrevíamos. (Risadas) Se Escrevíamos!.... Incrível. Ninguém acredita nisso. Era assim o namoro. O que eu ia conversar com os dois lá. Não dava pra conversar. Então ele escrevia e eu respondia. Era esse o namoro. Ia no cinema... Ia minha mãe junto. E um dia meu pai falou assim: você vai junto, mas hoje eu vou no cinema também. Eu achei esquisito porque meu pai nunca ia no cinema. Ele disse: eu vou no cinema mas vou ficar atrás, que se vê o que vocês fazem. Olha assim era duro.
Depois de um noivado de três anos, eu casei e fui morar numa casa. Meu pai tinha uma leiteria que ele e minha mãe tomavam conta.
E lá nessa casa, perto da rua do Hipódromo foi que eu casei. Casei e vim morar perto onde meu marido morava.
O meu casamento foi muito simples. Ele ficou bom no espiritismo, eu era espírita. Não achei justo eu casar na Igreja, sendo espírita. Casei em casa. Foi um casamento muito simples. Só os meus parentes. Não fiz festa. Fiz só um bolo. Uma festinha que minha mãe organizou. Mas não teve "festa". Assim mesmo, ficamos até as três horas da manhã. Depois eu fui para casa.
Tinha gramofone e meus irmãos fizeram folia e tudo. Mas não teve festa assim. Deu pra se divertir. Fiquei feliz porque casei. Nós queríamos casar. Casamos.
O casamento não foi de festa. Fomos para casa. Minha sogra morava numa travessinha perto. No dia seguinte a avó dele foi levar o café pra nós, levou numa cestinha, levou café, biscoito e um vinho dizendo que era pra fortificar (Risadas).
Antigamente tinha todas essas coisas. Tomamos café com eles e mais tarde saímos. Ele ficou dois ou três dias em casa. No dia seguinte... - tinha um amigo dele que não foi no nosso casamento - meu marido falou: "Puxa, o Monteiro não foi no nosso casamento". É que ele morreu no dia que nós casamos, mas ele soube só no dia seguinte. Ficou muito triste porque era amigo íntimo dele.
Ele gostava muito de mim. Ele era tarado em mim. Ciumento que só vendo. A gente saía a pé, porque não tínhamos carro naquele tempo, e eu tinha que olhar para frente. Se passava num bar e olhava ... - "Porque você está olhando pra lá?" Era muito ciumento de mim. Demais. Eu era ciumenta também. Ele tinha ciúme de mim e eu dele. Às vezes a gente brigava por causa desse ciúme. Depois de velho já melhorou.
Ele era bonito. Depois ficou magro, ficou feio. De mocinho ele era um tipão. As mocinhas gostavam dele. Uma vez ele contou que ele ia num ônibus e ele começou a conversar com uma passageira. E diz que o marido dela entrou e viu ele conversando, fez um escarcéu no ônibus. Uns dias depois, ele entrou no ônibus, a moça estava lá e ele desceu do ônibus. Falou - "Não quero criar caso". Ele era muito agradável para conversar. Fora era diferente. Tinha um freguês que dizia pra ele: "Você venha aqui, mesmo que eu não compre nada. Venha, porque quando você entra parece que entrou uma luz". Era querido.
Ele morava na rua da Alfândega e eu fui pra rua Benjamim de Oliveira. Lá eu morei em 4 casas. Antigamente a gente casava e ia morar junto com os outros. Nada de casa sozinha. Não podia. Ele ganhava pouco. Meu marido ganhava 350 mil réis. Eu pagava 150 de aluguel.
Fiquei grávida. Fiquei quatro meses com enjôo, não parava nada no meu estômago. Não podia sair. Uma vez eu estava no açougue que eu fui comprar carne e precisei sair, correr para casa que era pertinho porque eu tinha vômitos. Fiquei quatro meses assim. Cheguei a ficar oito dias na cama de tanto que eu punha tudo para fora.
Tive
as filhas em casa. Aquele tempo não se usava ir ao hospital. Você
sabe que eu nunca fui no médico na gravidez delas? Passei a gravidez...
Não usava fazer isso. Nem ir ao médico, nem fazer pré-natal,
e quem me assistiu foi minha mãe, que minha mãe não era
parteira diplomada, mas ela fazia muitos partos. Todo mundo chamava ela. Foi
ela quem fez o meu parto. Foi difícil. Quase morri. Também, fiquei
me sentindo mal durante o dia, passei a noite ruim, com cólicas e ela
não nascia. Só nasceu as 8:30. Já iam chamar o médico
e minha mãe dizia: "espera mais um pouco, espera mais um pouco".
Ela não queria me deixar, até que ela nasceu. Fiquei toda arrebentada,
porque demorou. Ela ficou coroada na vagina. Me machucou muito. Mas nasceu.
Parecia uma baianinha, toda inchada, nariz chato.
Quando fiz nove meses de casada eu senti as primeiras dores e a Neuza nasceu
no dia seguinte. Eu casei dia seis e ela nasceu dia nove.
Eu queria menina e ele queria menino. Sempre gostei de menina. Acho que por
isso que a segunda nasceu menina também. Aí, quando foi no dia
seguinte ela ficou linda, mas tão linda... Ficou muito bonitinha. Parecia
uma boneca. Ela foi muito bonitinha de criança e muito esperta também.
Foi crescendo, crescendo...
Aí, engravidei de novo. Eu que quis. Eu não queria logo, mas a Neuza já estava com três anos e pouco e eu falei; "Vamos tentar outro filho". Aí fiquei grávida, mas justamente essa menina não teve sorte. Ela nasceu gritando, gritando. Não quis mamar, morria de fome, eu com os peitos cheios. Ela queria pegar, mas escapava, queria pegar, mas escapava. Assim, procurei dar mamadeira, mas ela não chupava nem a mamadeira. Precisava dar de colherinha. Depois, quando eu levei ela no médico, ela estava sempre.....Parecia bronquite. Nenhum médico acertava o que ela tinha. Sofreu muito. Comia mal, dormia mal. Quando ela comia (dava até aflição ver) eu ficava sozinha com ela porque ela parecia que ia se afogar. Depois de muitos anos que ela morreu. Um dia, quando a gente quando limpava o banheiro - não usava tapete, punha jornal para não sujar. Eu estava no banheiro e olhei: "Descoberta da Doença Azul: Foi descoberta nos Estados Unidos a Doença Azul". Aí eu li tudo o que estava escrito e era tudo o que ela sentia. Tudo o que ela sentia estava no jornal. Então ela tinha isso, Doença Azul. Diz que é uma veia. Nós temos uma veia que purifica o sangue e passa para outra. Essa veia dela não funcionava. Então o sangue ficava sempre envenenado. Não purificava. E ela sentia essas coisas. Ficava...Engasgava. O médico estava marcando uma operação da garganta. Vamos fazer a operação da garganta, para ver se, quem sabe, tirando as amídalas, ela melhora. Aí ela ficou doente, ficou 14 dias com pneumonia, se vê que deu um colapso cardíaco. O coração já estava.... Por causa da doença né. Ela estava com 5 anos e 2 meses. Eu consegui levar ela pra frente. Fazia mamadeira pra ela, dava mamadeira pra ela, o médico receitava, ela ficava toda assada. Não havia o que desse pra essa menina ir pra frente. Até que um dia minha mãe disse: Quer saber de uma coisa, tira todos esses pós, essas coisas. Aquele tempo não tinha liquidificador, batedeira e então eu tinha que ficar ali... Tinha um pó que demorava para dissolver, pra por na mamadeira. Dava pra ela, ela ficava com a barriguinha estufada, e era a mesma coisa que beber água. Começava a gritar de fome outra vez. Até que eu dei leite da leiteria, pus maizena e foi com isso que eu salvei ela. Salvei ela, mas ela já tinha essa doença e com 5 anos e 2 meses ficou com pneumonia. Depois de um tempo, um dos médicos disse: foi bom ela morrer com 5 anos porque senão, quando chegasse a época da menstruação dela, ela não ia resistir e ia morrer mocinha. Então ia ser pior. Então eu me conformei. Aí eu não quis mais filho. Falei: "Ah. Sofri tanto com ela". Ficava as noites inteiras, um pouquinho com ela, meu marido com ela e eu ia para a cozinha - a cozinha era fora -, ia fazer mamadeira. Sempre gritando, sempre gritando. Até que eu consegui que ela chegasse aos 5 anos. Depois eu perdi. Aí falei: "não quero mais filho". Não tive mais. Não quis mesmo ter mais filho.
As filhas (Neuza e Nelida)
O MARIDO
Meu marido em casa era meio turrãozinho. Ele não era muito alegre. Fora ele era melhor. Todo mundo gostava dele. Ele foi vendedor e todos os fregueses gostavam dele. Foi vendedor da Jurid, uma firma grande. Ganhou prêmios, placas com o nome. Ainda velho trabalhava. Parou com mais de 80 anos porque dava tontura de cair na rua. Não falou nada pra ninguém. Até que caiu perto de casa, e daquela vez ficou com medo. Não foi mais trabalhar. Trabalhou até 80 anos. Trabalhou bastante. Era vendedor na rua, Trabalhava na rua, de freguês em freguês. Ele era bom, muito bom de coração, mas não era alegre assim. Não sei se era porque a gente morava junto também. Meu genro também não era lá muito cordial e então ele se sentia meio constrangido. Acho que por isso ele não era tão expansivo. Mas ele era bom
João - Bodas de Ouro
TRAJETÓRIA DE VIDA
Minhas cunhadas eram costureiras finíssimas, trabalhavam pra essa família Matarazzo, essa gente muito rica, os Símonsen. Elas costuravam muito bem. Uma delas era divina; nas mãos era uma artista para costurar. E elas costuravam e moravam numa casa muito pequena. Quando ia freguesa para elas experimentarem, tinha a sala aberta, e então ninguém podia entrar. Às vezes meu marido chegava pra almoçar e não podia entrar porque era aberto e as freguesas estavam experimentando roupas. Então, vagou uma casa perto de onde eu morava, da mesma dona. Fizeram um acordo e elas iriam morar lá. Era uma casa grande, uma casa com um corredor, tinha uma sala só pras freguesas e tudo. Só que eu precisei ir morar junto porque elas não podiam pagar sozinhas o aluguel. Aí eu fui morar junto. A pior coisa que eu fiz porque eu não me dava com as minhas cunhadas. Tinha uma cunhada muito chata. Ela me judiou muito. Nem quero falar disso. Morei lá pouco tempo. Aí vagou uma casa com dois cômodos e uma cozinha, pegado onde eu morava e fui morar lá sozinha.
Eu ficava em casa, cozinhava, fazia tudo, porque naquele tempo não se usava, não tinha empregada. Só gente riquíssima tinha empregada. Eu fazia tudo: cozinhava, lavava, passava, cuidava da menina quando ela nasceu.
Naquele tempo meu marido estava trabalhando no escritório da Companhia Veado. Uma companhia de cigarros. Ele trabalhava no escritório como "Guarda Livros". Só que ele não podia assinar. Ele fazia tudo e outro assinava porque ele se diplomou, mas não pegou o diploma. Meu sogro não pode pagar pra ele pegar o diploma. Como ele não tinha diploma, ela não podia assinar. Trabalhou em diversos escritórios assim.
Saímos do Brás e fomos para o Ipiranga. No Ipiranga compramos essa casa na Avenida Dom Pedro, que era um palacete, perto do Monumento.
O Ipiranga era meio bagunçadinho também, mas era bom. A gente tinha muita gente, as tias do meu marido que moravam no Ipiranga. Então tinha companhia lá. Iam sempre. Eu morava numa rua e elas moravam na mesma rua, embaixo.
Depois
eu fui para o sobradinho e dele para ....... Eu não saía. Sabe
o que eu saía? Tomava o bonde e ia visitar minha mãe.E fazia as
compras. Lá fazia minhas compras, vinha para casa, cuidava de minhas
filhas. Ficava lá arrumando tudo. Não fazia grandes passeios.
A Neuza ficou mocinha. Quis estudar. Fez escola no Ipiranga, fez o Grupo. Ela
estava no Grupo Escolar do Brás. Como eu mudei para o Ipiranga, tinha
um colégio logo na viradinha da minha casa. E ela era tão adiantada
que ela já entrou no segundo ano. Fizeram exame e ela estava adiantada
para o segundo ano. Ela fez até o quarto ano. Foi para o ginásio,
fez o ginásio. Tudo isso a pagamento. A gente não podia, mas fez
um sacrifício. Ia no colégio particular, Colégio Paulistano.
Aí ela estudou. De lá ela fez um cursinho. Prestou exame na Faculdade
e entrou. No primeiro exame entrou. Ela era muito estudiosa. Não era
uma menina... Esse marido dela foi o primeiro namorado dela. Já estava
com mais de 20 anos.
Nunca namorou. Não olhava pra ninguém. Às vezes a gente via os mocinhos olhando pra ela e ela nem tomava conhecimento.
Só estudava, estudava. Foi muito estudiosa. Nunca me deu trabalho pra mandar ela estudar. Às vezes eu viajava e minha sogra ia ficar com ela que dizia: "Não, não posso viajar, tenho que estudar". Uma vez ela ficou com caxumba, e precisou ficar em casa. Essa vez ela ficou pra segunda época. Nossa Senhora. Ela quase queria deixar de estudar porque ficou pra segunda época. Não era hábito dela. Era muito estudiosa.
Fez Faculdade de Biologia. Ela queria Medicina, depois ela achou que Medicina ia ser muito puxado, ia demorar mais. Então fez Biologia. Foi uma aluna muito aplicada, nunca repetiu. Estudou até se formar. Quando ela se formou (dava aula num cursinho), aí conheceu os primos do marido e por intermédio deles conheceu o marido que morava em São Carlos, se formou e veio trabalhar em São Paulo. Foi por meio desses primos que começaram a namorar. O primeiro namorado dela.
Meu
marido se estabeleceu numa casinha com escritório e vendiam para o interior,
peças de automóvel. Foi progredindo e pôs essa loja perto
da Sorocabana. Uma loja grande, uma beleza de loja. Tinha uma freguesia que
só vendo!!!
Comércio de peças de automóvel. Importavam peças
dos Estados Unidos. Vinham peças. E ele era sócio com outro amigo
dele. Eles importavam. Depois veio esse amigo dele, numa sexta feira, esse amigo
pediu dinheiro emprestado. Ele falou: "Você me empresta que eu estou
precisando. Na segunda-feira eu te dou sem falta. Quando foi na segunda-feira,
meu marido foi lá não encontrou ele, só encontrou os empregados.
Perguntou Cadê o .............. Ah. Ele não veio hoje. Ficou esperando.
Sem querer ele encostou numa estante que tinha e viu que a caixa entrou para
dentro. Quando foi ver, estava tudo vazio. As caixas todas vazias. Ele tinha
retirado toda a mercadoria de noite e decretou falência. Então
como eles tinham negócios a parte (Não eram sócios), atingiu
também meu marido. Aí os bancos trancaram tudo. Meu marido ficou
sem poder ....... Tinha mercadoria em Santos para retirar mas não pode,
teve que vender. Nem o telefone ele conseguiu retirar, nem vender. Um dia deu
um nervoso e ele arrancou o telefone e jogou no chão. Pagou todos os
que ele devia com as peças que tinha lá. Essa casa ficava perto
da Estação da Sorocabana. Teve uma loja também no centro.
Enquanto as coisas estavam boas, compramos um palacete, na Avenida Dom Pedro I.
O palacete da Avenida Dom Pedro era uma beleza. Tinha um jardim grande na frente. Tinha uma sala enorme, bonita, tinha hall e depois desse hall tinha uma sala e depois dessa sala vinha a cozinha e depois vinha outra sala, que eu fazia de sala de jantar. Em cima tinha o meu dormitório que era muito grande, com três janelas na frente, sacada e tudo. Era muito bonita a casa, muito boa. Tinha cozinha grande e um quintalão. Em cima tinha o meu dormitório e o dormitório da menina e o banheiro. Embaixo o resto das coisas. No quintal tinha a garagem e em cima da garagem tinha dois cômodos e um banheiro. Embaixo tinha também lavanderia e outro quintal grande para o fundo. Era grande que só vendo. Grande demais até. Comprei móveis novos. Vendi tudo o que era do meu casamento. Não sei se vocês ouviram falar, era cama Maria Antonieta, redonda assim, bonita a cama. Depois comprei móveis novos. Só vendi a cama. Deixei o toalete e o guarda roupa no quarto da menina. E eu comprei um dormitório e uma sala de jantar pra mim. E assim... Depois perdemos tudo.
Teve
uma festinha pequena, porque já estava naquele "fogo" do meu
marido. Então ele foi para o interior receber de uma porção
de fregueses que deviam. Cobrou, recebeu e fizemos não uma festa, só
bolo e um champanhe. Os parentes dele, alguns amigos nossos. Foi viajar para
São Pedro, de lua de mel. Meu marido emprestou o carro. Porque tinha
dois carros: um dela, um Volvo, mas naquele "fogo" precisou vender
o Volvo dela e ficamos só com o outro. Ele passou para o nome do meu
genro para não perder o carro, por causa do negócio da falência.
Eles queriam decretar falência. Emprestou o carro, eles foram viajar.
Depois foram para São Carlos, na casa dos pais dele, e nós fomos
encontra-los lá. (Ela casou no dia do aniversário de meu marido,
26 de dezembro, um dia depois do Natal). Fomos para São Carlos para passarmos
o fim de ano. Depois voltamos todos juntos. Fizemos um almoço lá.
Daí foi aquela vidinha. Foi trabalhar. Eu morava na Av. Dom Pedro, mas
fui para lá para passar o dia dos meus 25 anos de casada e de noite ela
convidou uns amiguinhos dela. Pegaram um champanhe e todos eles assinaram o
champanhe dos 25 anos de casada. Depois esse champanhe serviu para meu neto,
para comemorar não sei que formatura.
Estava guardada. E a Neuza falou: "Vamos abrir essa champanhe, senão
vai ficar aí até quando".
Sofá na casa da Avenida Dom Pedro- Ipiranga (São
Paulo)
E A VIDA CONTINUA...
E foi assim. Cada um foi trabalhando por seu lado. Meu marido continuou vendendo. Nós fomos morar na Lapa junto com eles. Eu tomava conta das crianças. Ela saía de manhã cedinho, ele tinha consultório na Lapa, na rua Faustolo, e eu ficava tomando conta da casa. Todos saiam para trabalhar e eu ficava com essa empregada minha. Aprontava as crianças, fazia almoço. Eu que cozinhava. Cozinhei muito tempo. Aí eles chegavam ao meio dia, tinha que estar tudo pronto, as crianças prontas, porque o Flavio ida de manhã com ela e a Jurema ia de tarde. Então aprontava ela, almoçava e cada um saia outra vez. À 1:00 hora tinham que estar lá embaixo, outra vez no emprego. A Neuza trabalhava o dia todo. Na parte da manhã e da tarde.
Quando ainda morávamos na Av. Dom Pedro, a Neuza não quis morar junto comigo (depois de casada). Veio para a Lapa. Meu genro é meio esquisito, nunca quis morar junto. Agora, eu moro. Agora ele tem que me agüentar. Teve um tempo que eu morava sozinha na Lapa num apartamento em cima. Meu marido começou a trabalhar de vendedor.
A firma dele não chegou a falir. Fechou. Então de lá nós pusemos todos os móveis na casa da minha cunhada e da minha sogra que morava numa casa e fomos pra Lapa. Na casa da Neuza. Quando o menino dela nasceu fiquei lá 15 dias. Meu marido ficou sozinho naquela casa da Av. D. Pedro que já estava em demanda, não tinha mais móveis, só tinha um estrado. Eu mandei os móveis todos senão me tiravam tudo. Eu mandei pra casa de minha sogra e fiquei com um estrado que tinha lá na garagem. Quando eu ia pra lá, nos domingos, porque eu fiquei com a Neuza mais de 15 dias, quando o menino nasceu. Nos últimos 15 dias ela tinha cólicas de rim, então eu fiquei lá. Aí meu marido ficava sozinho. Eu só ia aos domingos. Só chorava. De ver a casa vazia, dormindo num estrado. Só chorava, chorava. Assim foi passando. Tivemos que entregar a casa e saímos. Nós tínhamos feito pedido para a telefônica, e no dia em que estávamos mudando foram instalar o telefone. Eu falei - não instala porque eu estou indo embora.
Aí, eu não tinha para onde ir e fui para a casa da Neuza na Lapa. Só levei comigo uma cadeira que eu não quis mandar para minha sogra, senão minha cunhada me tirava essa cadeira e não me dava mais. Eu sabia que ela estava de olho na cadeira. Então eu levei a cadeira. Era a cadeira do papai. Até hoje eu tenho ela. A cadeira está sempre comigo. Quando eu morrer a minha neta já pediu a cadeira. Então eu levei essa cadeira para a casa da Neuza. Aí eu comecei a procurar casa.
Meu marido não tinha onde ficar. Dormíamos na sala em um colchão no chão. Chegava a noite, punha no chão e de manhã guardava num quartinho que tinha no fundo do quintal. Aí comecei a procurar casa. Procurando, procurando até que achei lá pertinho, na rua Albion. Na subida da rua Faustolo. Então, no finzinho dela tinha um posto de gasolina. Logo em frente saia essa rua. Aí tinha um apartamento que pagava três cruzeiros, já era cruzeiro. Baratinho. Naquele tempo era tudo barato. Não era mil. Mil era uma fortuna. Aí fomos morar lá. Era um apartamento de três cômodos: tinha a sala, um dormitório no meio, outro dormitório que era o meu, a cozinha e um terracinho. Fui morar lá. Meu marido trabalhava de vendedor.
Às vezes demorava para receber e atrasava para pagar o aluguel. E justamente a dona dessa casa tinha trabalhado com minha cunhada. Era amiga, mas era meio imponente. Quando ela viu que eu atrasei, ela vinha bater na porta pra cobrar. Quanto eu chorei naquele apartamento. Aí depois estabilizou.
Ele começou a vender, porque no começo, até arranjar freguesia demora. Ele começou a vender peças de automóvel. Ele vendia, depois fazia os pedidos e mandava pros fregueses. Ele vendia bem porque ele era conhecido. Todos que eram fregueses da loja depois eram fregueses dele. Aí minha filha começou a construir uma casa na rua Caativa, na City Lapa e então ela me convidou. Eles me convidaram porque ela trabalhava, era professora no Colégio Campos Salles e ele tinha consultório na rua Faustolo onde ela morava. O primeiro endereço que eu fui morar junto com eles, fiquei uns dias só. Nem sei quantos dias. Aí achei esse apartamento. Aí ela construiu uma casa grande, boa. Era lá em cima, na Pio XI. E ela ia trabalhar. As crianças eram pequenas ainda. Eu tenho dois netos. Então ela convidou para irmos junto e tomar conta das crianças. Não ia deixar na mão de empregada. Eu fiz uma operação e não podia fazer nada, e então arranjei uma empregada para me ajudar e ela foi junto comigo para essa casa.
Uma casa muito boa. Ela vendeu há pouco tempo. Fomos morar lá e fiquei até que ela mudou para esse apartamento.
Nesse apartamento meu marido ficou doente. Minha neta tem um sitiozinho em São Roque e nós íamos sempre para lá. A Neuza também ia. Fez uma casa e nós íamos para lá. Depois deu a casa para a filha e fez uma casinha menor, lá mesmo, no terreno que ela comprou pegado ao sitio da filha. Aí como nós estávamos nos tratando em São Roque, ele ficou ruim lá, foi para o hospital e ficou uns 15 dias. Só doente. Os médicos que estavam tratando dele acharam qualquer coisa diferente na próstata, mandou tirar radiografia, tinha um tumor na próstata. Esse tumor bloqueava o intestino e ele não evacuava. A última vez que fomos ao médico ele tinha emagrecido três quilos e aí o médico assustou, mandou fazer exames e ele ficou lá no hospital internado. Estava muito fraco, muito anêmico, tomou sangue e soro. Depois veio para casa, voltou outra vez, fez uma operaçãozinha na próstata só um limpezinha, porque não podiam fazer mais, porque o tumor era muito grande. Até que ele ficou ruim e morreu em 15 dias. Foi embora. Tinha 86 anos.
Ficamos quase 62 anos casados. Fizemos Bodas de Ouro, os 60 anos...
Quando eu fiz 70 anos eu estava doente. Fiquei doente do intestino. Fiz operação. Uma cirurgia que pensei que não voltava. Voltei, Fiz cirurgia do intestino e tirei ¾ do intestino porque tinha uma fístula com a bexiga. Abriram a bexiga, limparam, porque essa fístula...Não sei direito. No hospital mesmo fiquei ruim e o médico não deu esperança. Falou: "Vamos operar para arriscar". Ainda depois da operação quando fui para a UTI, deram 48 horas de prazo para ver a reação. Eu reagi, fiquei boa e estou aqui.
Eu viajava muito com meu marido. Depois que minha mãe morreu, meu pai foi morar junto comigo, ele tinha já idade, mas era forte. Às vezes ele saia aos domingos para visitar os amigos. Então, quando nós viajávamos, dizíamos para ele ficar em casa. A gente não pensava que quando a gente está velho é difícil ficar sozinho. Ah. Meu marido falava que queria viajar, nós íamos para Caraguá junto com os amigos dele. Juntava três ou quatro e íamos. Fui para a Bahia com minha cunhada. Nós dois e minha cunhada. Fui para Foz do Iguaçu. Fizemos um Turismo, excursão. Fomos para o Norte, visitamos tudo o que há lá. Eu já estava doente, me tratando, mas falei com o médico e ele deu ordem. Foi antes da operação. Aí fomos. Viajei bastante viu. Ele gostava muito de viajar, meu marido.
A Neuza já estava casada. Ela tinha a vidinha dela e nós a nossa. Ela também viajava. Às vezes a gente saia para um lado, ela para outro. Às vezes ela não saia para não deixar a casa sozinha. Quando eu viajava, ela ficava.
Viagem à Barriloche
OS NETOS
O nascimento do primeiro neto foi uma festa. Teve o menino no hospital. Foi
um pouquinho difícil, mas naquele tempo já usava hospital. Ela
ia ao médico, se tratava. Teve um menino.
Não se sabia que era menino. Naquele tempo a gente não sabia. Então era surpresa sempre.
Eu fiz uma porção de coisas. Eu costurava. Fiz enxovalzinho pra ele. Fiz muita coisa. A Neuza também fez. Foi uma alegria. Foi um menino. Pro Ayrton foi uma alegria. Só que ele era muito chorão. Chorava, chorava (risos). Uma noite... Eu fui encontrar com ela que ela no colégio e eu levei ele numa mantinha, embrulhadinho, que ele era novinho. Quando cheguei na rua que encontrei com ela, ela disse: "Pra que toda essa embrulhação?" e desembrulhou, deixando a cabecinha dele pra fora. Ele tomou aquela friagem. Aquela noite ele gritou, gritou, e a gente não sabia o que era. Até que descobrimos que era dor de ouvido. Ele pegou aquele frio. Nós passamos aquela noite com ele no colo, um pouco cada um, meu marido, o Ayrton. O Ayrton embrulhava, socava ele pra ver se ele parava de chorar. Foi a noite toda e aí, no dia seguinte levaram ele no médico e o médico disse que era uma dor de ouvido forte que ele teve. Medicou, melhorou.
Mas ele era chorão. Me lembro que uma vez eu estava passando roupa - porque eu fiquei com ela uns tempos, porque não tinha quem olhasse ele. Ela trabalhava -, estava passando as fraldas e ele gritando. Trouxe ele pra fora e ficava com ele passando roupa. Era muito chorão. Até que foi crescendo. Eu tomava conta dele. A Neuza trabalhava. Nas sextas-feiras ela saía, combinava com os amigos, iam a restaurantes e eu ficava. Até que ela arrumou empregada. Aí a empregada ficava com ele.
Depois ela ficou grávida a segunda vez. Essa ela já não teve sorte. Quando ela nasceu, não sei o que deu nela. Trouxeram ela pra mamar e deu uma convulsão. Tiveram que levar correndo, medicaram e ficou no berçário para observação. Me lembro que o Flavio só falava na Jurema, na Jurema. E um dia ela telefonou e disse que os médicos não tinham dado esperança que a menina se salvasse, porque dava convulsão seguida nela, ou talvez ia dar qualquer tipo de problema. Ela me telefonou que a menina estava muito ruim, que não falasse mais da menina pro Flavio. Que talvez a menina não fosse pra frente. Ela ainda ficou no hospital por causa da menina, que a menina tinha que ficar. A menina venceu. Tá aí. Saímos da maternidade e fomos direto ao médico. O médico examinou ela na palma da mão (era pequetita, pequenininha mesmo). Ela reagiu e o médico disse: não tem nada. Está normal. Foi uma sorte porque o que ela teve foi grave, podia ter deixado ela com algum defeito. Aí foi crescendo... Hoje está com dois filhos.
Netos (Jurema e Flávio) - 1961 e 2000
OS BISNETOS
Tenho quatro bisnetos. O Flavio casou. Não queria casar. Estavam juntos só. Foi morar junto com ela e tudo. Depois, o pai dela que é sírio, é pessoa mais antiga. Tanto fez que eles se casaram. Casaram. Não queriam casar, não queriam filhos. Tiveram tudo. Ela usava um negócio pra não ter filho. Não deu certo. Quando foi ver, foi no médico e ele disse que ela estava grávida de dois. De gêmeos.
Não queriam casar, não queriam filhos e aí vieram esses dois gêmeos que hoje estão quase mocinhos, vão fazer 14 anos em setembro.
A Jurema também não queria casar, não queria casar. Estavam juntos. Pra mim aquilo foi um choque. Porque eu não estava acostumada com essa geração nova. A Jurema casou primeiro. Quando a Neuza me contou que ela tinha ido pra lá ...... junto com o Oscar, quase me deu um ataque. Foi a Jurema mesma que me contou. Depois eu falei pro meu marido: "O Que nós vamos fazer. Temos que aceitar. Se os pais aceitam, nós que somos avós temos que aceitar".
A Jurema fez isso, foi a primeira e para mim foi um choque. Depois o Flavio já... Tinha tantas namoradas, levava as namoradas para casa. E eu tive que me adaptar a tudo, eu que sou de uma geração de 90 anos atrás. Foi tudo choque para mim, mas eu me adaptei porque disse: "eles querem assim, é a felicidade deles. Deixe que eles façam o que quiserem".
A Jurema casou. Quando casou disse que estava grávida. Casou com um vestidinho largo. Ah, a felicidade dela era a gravidez, era a felicidade dela. Não pensava no tal casamento, nada. Casou não sei porque, precisou de documentos pra não sei o que. Então precisava ser casado. Aí casou. Mas estavam juntos já há bastante tempo. Ela disse que estava grávida e foi no médico fazer ultra-som e viu que não tinha nada. No ultra-som não deu nada. Acho que perdeu quando foi para Caraguá e não percebeu. Viu que teve umas hemorragias lá, mas não pensou que tivesse perdido. E perdeu. Depois ficou grávida outra vez. Aí teve que fazer repouso. Fez tratamento para ter e hoje tenho um bisneto grande, bonito que só vendo.
Só tenho bisnetos homens. Tudo homem. Não tem nenhuma mulher. Eu que era louca por mulher. Tive a primeira, mulher, a segunda, mulher (a segunda eu queria homem por causa do João), mas tive mulher também e fiquei contente. Não tenho nenhuma mulher como bisneta.
Meu
marido ficou contente com os bisnetos.
Ele era brincalhão com as crianças. Gostava de brincar com eles,
pegava eles, brincava. Às vezes tinha medo de machucar, qualquer coisa.
Então ele... Ele adorava os bisnetos. Já estavam grandinhos quando
ele morreu. Faz 6 anos. Eles que empurraram o carrinho dele para o enterro.
Os quatro bisnetos que empurraram. Os de lá, da Jurema moram em São
Roque. Agora nas férias eles vêm para cá. É um meninão
bonito, grande, porque o pai é troncudo (agora está mais magro),
mas ele puxou o físico do pai. É muito forte, parece um homem.
Vai fazer 15 anos em setembro ainda. Está estudando em São Roque.
O Victor é miúdo, mas esperto que só vendo!!!!!!
Bisnetos (André, Bruno, Tiago e Victor) - 1990 e 2000
OS 90 ANOS
A festa foi uma surpresa. A Neuza é danada. Olha ela falou: "Mãe, eu não posso fazer festa porque a circunstância não dá. O Ayrton está sempre...- meu genro vai toda segunda-feira tomar soro porque ele é diabético e tem não sei o que no pulmão e precisa tomar soro com cortisona toda segunda-feira no Hospital das Clínicas.
Ela disse: "O Ayrton está sempre encrencado, toma tanto remédio, não vamos fazer nada. Vamos fazer um bolinho na casa do Flavio." Eu falei: "Mas na casa do Flavio? Você pode convidar a minha cunhada?" - ela ficou viúva também, a única irmã do meu marido. Ela disse: "Nem ela vou convidar" "Que pena! A Regina também (uma prima dela que é filha de um sobrinho meu) não? Qualquer festinha que ela faz ela convida." "Nem a Regina vamos convidar?" "Não, ninguém. Só os netos e nós" Eu fiquei triste, porque não podia convidar essas duas pessoas que eu tenho mais intimidade: minha cunhada que há pouco tempo perdeu um filho, estava muito triste: um sobrinho meu que estava forte, ficou doente com câncer e acabou morrendo, e nós sofremos muito. Então ela está sozinha, sem esse filho. Eu disse, pelo menos a Nena. Ela disse não. Sabe o que eu vou fazer, vou fazer uma feijoada e convido elas no domingo. Elas vem. A Dorothy, mulher desse que faleceu e a Nena. Elas vem comer feijoada em casa. Na véspera, naquele dia, eu falei: "Você telefonou para a Nena que amanhã ela tem que vir comer feijoada?" Olha, juro. Elas não acreditam. Eu não desconfiei de nada. Ela convidou todos os meus sobrinhos. Quem tinha lá eram poucos estranhos, dois ou três só que eram vizinhos. O resto era tudo do meu lado. Filhos de meus sobrinhos, meus sobrinhos que fazia tempo que eu não via. Primos do meu marido que fazia anos que eu não via. Ela convidou todos, quietinha. Fez tudo e eu não desconfiei de nada. Não vi nada. Quando foi naquele dia: "Sabe mãe, o que aconteceu? Vai vir o Davi, a Lourdes, a Diva, vão vir todos (A Diva mora em São Carlos e faz bolos para casamentos). Ela tem um casamento muito chique em São Carlos e precisa vir fazer compras aqui (de vez em quando ela vem e ela leva ela no mercado e ela compra tudo o que precisa para os bolos).
Eles vão chegar pelas 10:00 horas, assim, e eu vou precisar sair com ela para fazer as compras. E elas estavam todos lá embaixo, no salão fazendo as coisas e eu nem desconfiei de nada. Ela falou: "Mãe, a Senhora fica aí e quando for meio dia a senhora faz o arroz pra feijoada. (ela tinha feito feijoada). Os maridos iam ficar com o Ayrton.
Fiquei chateada. Até vocês vão ficar para ir à casa do Flavio. Ela disse: "Nós vamos embora hoje mesmo" Fizeram uma coisa tão bem feita. Olhe, prepararam tudo. Ela disse que tinha coisa para tirar da geladeira, e eu estava na cozinha e ela não podia tirar, nem na sexta feira, tirar as coisas do freezer para levar ao salão. Olha, fizeram tudo. Fizeram uma festa... Ah. Aí me deixaram sozinha. Tinha uma vizinha dessa casa que nós moramos. Ela tinha estado em casa e disse: no seu aniversário eu venho para ir na casa do Flavio. Acho que ela estava sabendo e eu não sabia de nada. Então, ficou combinado que ela passava em casa pra me pegar para ir na casa do Flavio. Porque a Neuza não sabia que hora vinha. "A Senhora se vira aí porque não sei que horas venho. A hora que eu venho já vou lá para a casa do Flavio. A senhora espera o Flavio, que vem aí pelas quatro e meia.
Tinha um vestido que eu tinha posto no casamento do Flavio. Quantos anos. Não pus mais. Mandei no tintureiro porque tinha umas manchas. Era um vestido cor de rosa. Eu guardei. Como meu marido morreu e era cor de rosa, eu não pus mais cor assim diferente. Então estava guardado. Ela pegou o vestido, mandou a faxineira lavar, a faxineira trouxe o vestido e não vi. Quando foi no sábado, ela veio com o vestido e me deu. Olha o vestido. Leva para o quarto que a Doralice já passou, que ele estava um pouco amassado e tudo. E eu, quantos anos que não punha aquele vestido, não sabia nem se me servia e disse: "Ih, Neuza, e se não me serve?" Ela foi embora e eu fiquei com aquele pensamento sozinha. Estavam os homens, dormindo, meu genro também) Certa hora eu falei: Deixa...... (eu deitei, mas não consegui ficar. Disse: vou me arrumar, escovar os dente, vou ver se o vestido serve. Falando comigo mesma porque não tinha ninguém. Pus o vestido. Eu tinha pra mim que a Neuza estava na Lapa. Eles subiram (os homens tinham saído dizendo que iam dar uma volta por aí - os dois maridos delas e meu genro). "Viemos almoçar". E eu falei: "A Neuza não vem?" "Ah, ela ainda demora mais ou menos uma hora, para acabar de fazer as compras". Pus o almoço para eles. Eles almoçaram e foram dormir. Eu fiquei sozinha. Nem sei que hora fui me aprontar. "Vou ficar pronta". Se o Flavio vier eu vou com ele. Se a Marina vier eu vou com ela. Pus o vestido. O vestido serviu, mas quando eu fui por o cinto, o último buraquinho não dava. Minhas mãos estão emperradas, mas ainda peguei uma tesourinha. Aí, pus o cinto, me aprontei. Tinha uma gravatinha não conseguia dar o laço, fazia o laço, não dava. E eu estava nervosa porque estava nervosa e não conseguia me aprontar direito. Aí fiquei com a gravata solta. Eu sabia que a Jurema vinha de São Roque, mas vinha mais tarde. Ela chegou. "Eu tenho que esperar a Marina, que a Marina não sabe onde é a casa do Flavio". De repente eu fui olhar... Ah. A Neuza fez um bolo. Fez um bolo como se fosse para o aniversário lá na casa do Flavio. Fez o bolo, enfeitou todo, um bolo branco, bonito como ela costuma fazer para os meninos. Pôs na geladeira. Eu olho assim, e vejo o Ayrton saindo. "Ué, onde o Ayrton vai?" Não sei quem estava lá e disse: "Foi levar o bolo." É que eu não tive curiosidade de abrir a geladeira, senão eu via o bolo lá.. Mas eu... foi levar o bolo... fiquei sossegada. Fui para o meu quarto. Ele foi também embora e eu fiquei sozinha. E todo esse drama para me vestir. Me vesti, fiquei toda prontinha e fiquei sentada lá no meu quarto. Fui para a sala, nada de chegar ninguém
Eu já estava agoniada. E o meu bisneto subiu também. Ah, vocês já estão... vocês já vão... Mas eu não liguei uma coisa com outra porque ele estava ali. Pensei que ele tivesse vindo da casa do Flavio com a Jurema. Ele falou comigo: "Vamos descer bisa" A Neuza tinha mandado me buscar já que estava todo mundo no salão. E eu lá em cima ainda. Eu falei: eu vou esperar a Marina. Nisso eles falaram - "A Marina já chegou" "Marina me dá o laço que eu não sei" Não sei o porque ela fez, não fez laço, deixou a gravatinha assim. Aí ela me desceu. É uma fotografia que está aí que eu estou com a boca aberta. Ela me desceu, desceu meu bisneto junto e ele saiu correndo do elevador e eu nem vi. E a Marina me tirou do elevador (o salão do nosso lado estava em reforma e fizeram a festa no salão do outro bloco). Ela se dirigiu pra lá. "Marina é pra cá (puxando), o carro não está aí fora?""É, mas nós temos que pegar uma chave. Eu achei esquisito, não queria ir. Fazer o que lá. Mas, nós temos que pegar uma chave...... Aí pensei: vai ver que é alguma coisa do porteiro que precisa ir lá buscar a chave.
Eu não desconfiei de nada, nada deste mundo. Nada. Eu nem queria ir pra lá, ela que me puxou. Aí, quando chego na porta do salão, vejo toda aquela gente, fiquei boba (emocionada, meio chorosa). "O que é isso?" Não chorei não. As primeiras pessoas que eu vi... "Mas você aqui?" Fui vendo todo mundo. Eram todos minhas sobrinhas que moram lá do Carrão. Vieram todos, só duas sobrinhas minhas não deram confiança. Até uma sobrinha que todo domingo eu ia visitar em Guarulhos. Ela nem me telefonou, nem me deu parabéns. Nada. E essa Marina, de manhã no meu aniversário mandou uma cesta de café. Uma cesta maravilhosa. Veio logo de manhã. "É uma cesta pra Senhora tomar café amanhã." Até esperamos esse pessoal todo, eu mostrei a cesta, e a cesta ficou em cima da mesa. Aí que eu vi que estava todo mundo. Me levaram ver a mesa. Tenho uma sobrinha, a Vera, que se dá muito com a Neuza né. Ela fez uma velhinha, uma velha como eu, velhinha com xalinho, vestidinho, de óculos, cabelo branquinho. Um belezinha viu. Com a cestinha de tricô do lado. Puseram lá na cesta. Fizeram uma porção de borboletinhas.
Estava maravilhosa a mesa. Eu fiquei boba. Fizeram tudo. Tinha tanta coisa. Aquela gente que veio de São Carlos, aquela que faz bolo. Ela fez o bolo. Trouxe o bolo pronto, mas cobriu tudo lá no salão. Fez tudo enfeitado. Tudo. Fez salgadinhos que trouxe também. Fizeram uma coisa bonita viu. Fiquei admirada. Foi uma felicidade para mim. 90 anos (choramingo) O que eu passei na vida em 90 anos. Mas, ficou na história essa... Quando eu via minhas sobrinhas eu dizia: "Você também está aqui, você também está aqui!" Fiquei admirada. Foi uma beleza. Fiquei muito feliz. A Neuza fez uma coisa muito bem feita viu. Pra mim. E olhe que eu não sou tonta. Qualquer coisa que eles fazem... Ela mesmo fala: "Não sei como a Senhora não desconfiou de nada. A Senhora está sempre ligada em tudo." (risos) Mas, não desconfiei de nada. Fizeram tão bem feito que eu não desconfiei de nada. Foi uma surpresa bem grande. Foi uma beleza a festa. Tiraram muitas fotografias, com meus bisnetos. Me lembro de coisas antigas. Tenho memória boa.
O fim é essa festa que eles me fizeram. Estavam tudo torcendo porque eu podia morrer de uma hora para outra. E eu mesmo quando deito falo: não sei se vou acordar. Pode ser que eu morra de repente né. Pode ser que eu fique doente. Então, estavam numa torcida. Quando eu levantei de manhã a Neuza falou: "Puxa, estava numa torcida com a Senhora. Todo mundo estava torcendo" "É cheguei." Mas, eu estava certa que ia na casa do Flavio, fazer a festa lá. Depois vi minha cunhada, vi essa Regina. Foi a maior surpresa de minha vida. Foi uma felicidade pra mim.
Festa dos 90 anos - 1999 - São Paulo
VIDA ATUAL
Não foi uma vida brilhante de solteira, de casada também não, não tinha posses. Depois fiquei bem, depois fiquei ruim outra vez (risonha). Agora estou assim. Tudo para mim está bom. Só espero minha hora agora. Moro com a Neuza, - coitada da Neuza, tem o marido que está sempre encrencado. Não pode se dedicar muito a mim. Às vezes, não é que eu reclamo, mas falo: "Ah Neuza, me dói essa perna". Ela fica nervosa. Outro dia ela falou perto da Vera que eu me queixo e ela fica nervosa porque não pode fazer nada. Então agora eu não me queixo, fico sofrendo sozinha. Não me queixo porque ela tem que me levar fazer a fisioterapia e não pode.
Eu quase não falo porque lá em casa ela está sempre nas coisas dela, ela cozinha, faz compras, ela faz tudo. Então a gente quase não conversa. Agora com o marido, está só atrás dele. Lê livros porque ele não enxerga. Ele tem uma vista só e assim mesmo com essa quase não enxerga.
Eu ajudo....ajudo.... Só tiro a mesa, dou uma varridinha na cozinha. Não posso fazer muito mais. Primeiro eu cozinhava. Agora tenho os braços também que me doe e para mexer as coisas no fogão não vai mais. Às vezes fico com raiva de não poder fazer nada. Mas, o que eu vou fazer. Me doem os braços, me doem as mãos. Estes dedos estão durinhos. Não posso fechar a mão. Eles não fazem idéia do que eu sinto. Ninguém faz idéia do que a outra pessoa sente. Só a pessoa que sente.
Então o jeito é ficar... e não se queixar.
Eudóxia com 9o anos, Mulheres em três gerações
(Eudóxia, Neuza e Jurema), Descendentes de Eudóxia e João,
Bisnetos com as namoradas de então - 2003